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Neste momento, estou profundamente envolvida em um texto que tenho escrito com mais prazer do que eu esperava. Trata-se de um capítulo do meu doutorado dedicado a dois romances tardios de J. M. Coetzee — Homem Lento e Diário de um Ano Ruim — e, de muitas maneiras, ele tem sido um retorno ao ponto de partida de todo o projeto.

Homem Lento foi um dos livros que primeiro me fez querer pensar com seriedade sobre como histórias podem ser moldadas por corpos que não se encaixam facilmente no mundo ao seu redor. Não apenas porque o romance traz um protagonista com deficiência, mas pela forma como a narrativa se move: devagar, de maneira desconfortável, recusando as satisfações que costumamos esperar da ficção. Muito antes de eu ter a linguagem da teoria, essa resistência já tinha ficado comigo.

O que mais me atrai nesses romances é a maneira como eles parecem lutar na própria página. As histórias hesitam, voltam atrás, se fragmentam em múltiplas vozes. Em Diário de um Ano Ruim, o texto é dividido em camadas, e ler se torna um ato físico de navegação. Em Homem Lento, o tempo se alonga, emperra, e a narrativa resiste a qualquer arco fácil de recuperação ou progresso. São livros que não se apressam em se explicar — e que não tentam apagar o desconforto que provocam.

Em vez de tratar isso como um problema a ser resolvido, meu interesse está em pensar no que essas formas instáveis podem nos dizer. Para mim, a escrita tardia de Coetzee oferece uma maneira de pensar a deficiência e o deslocamento não apenas como temas, mas como forças que moldam a própria estrutura da narrativa. Seus personagens estão frequentemente fora de lugar — geográfica, social e corporalmente — e os romances espelham essa sensação de desalinhamento. A leitura pode ser desorientadora, mas também curiosamente íntima.

Aqui entra a noção de ‘crip’, que mantenho em inglês. Assim como ‘queer’, trata-se de um termo reapropriado a partir de um insulto, usado hoje de forma crítica e política para pensar a deficiência não como falta ou tragédia, mas como um modo de existir que desafia normas de corpo, tempo e produtividade. Quando falo em formas ‘crip’, refiro-me a narrativas que assumem a lentidão, a dependência, a interrupção e a incompletude como escolhas estéticas e éticas.

Uma das maiores alegrias de trabalhar neste capítulo tem sido justamente permitir que essa desorientação permaneça. Esses são livros que recusam clareza, fechamento e conforto. Eles nos pedem que fiquemos com a lentidão, a vulnerabilidade e a incerteza — qualidades que costumam ser eliminadas tanto da ficção quanto da vida cotidiana. Escrever sobre eles tem me lembrado por que quis construir um projeto de pesquisa em torno de forma, fragilidade e resistência narrativa desde o início.

Por enquanto, estou contente em permanecer com esses textos: relendo-os com atenção, pensando em seus silêncios e interrupções, e deixando que continuem a moldar minha maneira de entender a escrita. Às vezes, ‘notícia’ não é sobre algo novo, mas sobre voltar — com outros olhos — àquilo que primeiro importou.

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