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Meu Primeiro Texto Publicado!

Há momentos na vida de uma escritora que parecem levemente irreais. Ver seu nome impresso pela primeira vez é um deles.

Em 2018, conquistei o terceiro lugar em um concurso nacional brasileiro — o Concurso Nacional Novos Escritores — e meu texto foi publicado na antologia Conta Conto: Concurso Nacional Novos Escritores. Foi a primeira vez que tive uma obra de ficção impressa em livro.

Lembro de segurar esse livrinho  nas mãos e sentir uma mistura de incredulidade e alegria silenciosa. Meu nome estava ali. Não em um rascunho de oficina. Não em um documento do Word. Não escondido em alguma pasta do meu computador. Impresso. Em um livro.

“Entretelar, Verbo Intransitivo”, o texto que enviei para a competição, faz referência ao romance de Mário de Andrade Amar, Verbo Intransitivo, claro, mas em um contexto de relações na era digital.

Essa pequna narrativa é um micro-conto. Ocupa pouco mais de meia página. E, ainda assim, me levou muito mais tempo para ficar pronto do que muitos textos dez vezes maiores.

O micro-conto é uma forma narrativa extremamente condensada. Não há espaço para andaimes, nem para longas histórias de fundo, nem tolerância para palavras desnecessárias. Cada frase precisa sustentar peso. Muitas vezes, o que não é dito é tão importante quanto o que aparece na página.Não é uma forma à qual eu naturalmente me incline. Me sinto muito mais confortável escrevendo ensaios, romances ou mesmo contos mais longos, de cinco mil palavras, ou até mais. Gosto de espaço para respirar. Gosto de estruturas em camadas, de digressões, de um desdobramento lento. A compressão não me vem de maneira instintiva.

E foi justamente por isso que decidi tentar, como um desafio.

Escrevi ‘Entretelar, Verbo Intransitivo’ durante uma Summer School de Escrita Criativa em Oxford — experiência sobre a qual escreverei em outro momento. Na época, propus a mim mesma o desafio de trabalhar em uma forma que me parecia restritiva. Queria ver o que aconteceria se me obrigasse a cortar sem piedade, a reduzir a narrativa aos seus gestos essenciais.

O que me surpreendeu não foi o quão curto o texto final se tornou, mas o quanto demorou para chegar ali.

Quando se tem apenas meia página, não há onde se esconder. Todo adjetivo se torna suspeito. Cada oração precisa justificar sua existência. O ritmo passa a ser estrutural. O final precisa reverberar para trás, atravessando o texto. Um micro-conto é menos sobre enredo e mais sobre tensão — sobre sugestão, ressonância e precisão. Para não dizer disciplina. A arte do conto em si é mais próxima da poesia do que do romance e o micro-conto deixa isso muito mais evidente.

E, quem diria, essa primeira tentativa conquistou o terceiro lugar em um prêmio nacional.

Lembro-me de sentir orgulho e, ao mesmo tempo, um leve espanto. Eu já podia me chamar de escritora? Aquilo tornava oficial?

É claro que a legitimidade não chega de fato com a publicação. Mas ver o próprio nome impresso faz algo profundo. Materializa o que antes era privado. Dá peso.

Olhando para trás, vejo essa publicação como um momento limiar — pequeno em escala, mas decisivo em significado. Foi a primeira vez que atravessei a fronteira entre a prática privada e a autoria pública – e veio não muito tempo depois de eu decidir que a escrita seria o foco central da minha carreira.

Ainda não sou, primordialmente, uma autora de formas curtas. Continuo mais em casa em ensaios longos, romances experimentais e narrativas em camadas. Mas sou grata a esse micro-conto. Ele me forçou à precisão. Aguçou minha atenção. E me deu a experiência inesquecível de ver meu nome impresso pela primeira vez.

Essa sensação — metade incredulidade, metade certeza silenciosa — permanece comigo até hoje.

Você pode ler o texto na íntegra na imagem dele que ilustra esse post.

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