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Em abril de 2025, tive o prazer de ministrar uma oficina de escrita criativa para adolescentes entre 12 e 15 anos, estudantes de escolas públicas da região de Norfolk, onde fica a University of East Anglia (UEA). A UEA é particularmente conhecida no Reino Unido por sua tradição em escrita criativa e por ter formado autores que alcançaram destaque no mercado literário contemporâneo — e iniciativas como o Live in Schools aproximam ainda mais leitores em formação da literatura viva.

Confesso que cheguei bastante nervosa. Não tenho muita experiência trabalhando com adolescentes e sabia que manter o engajamento de um grupo nessa faixa etária não seria simples. Mas fui agradavelmente surpreendida: os alunos estavam profundamente envolvidos. Em um dos momentos centrais da oficina — uma atividade de escrita mais longa — a sala ficou em silêncio absoluto por cerca de vinte minutos, interrompido apenas pelo som de lápis riscando e borrachas apagando. Considerando a idade do grupo, foi um daqueles momentos em que percebemos que algo realmente deu certo. Modéstia à parte, senti que consegui elaborar uma atividade que de fato capturou o interesse deles.

A oficina fez parte do UEA Live in Schools, um programa de extensão universitária que convida estudantes do ensino fundamental e médio a passarem um dia no campus. Ao longo do dia, os alunos participam de author talks, sessões de perguntas e respostas e oficinas práticas com escritores, pesquisadores e artistas ligados à universidade e ao mercado editorial. A proposta é dupla: aproximar jovens da literatura contemporânea e, ao mesmo tempo, desmistificar o ambiente universitário — especialmente para alunos de escolas públicas, para quem a universidade ainda pode parecer distante ou inacessível.

No dia do evento, além das oficinas, os alunos assistiram a palestras com autores convidados como Lauren ‘Ren’ James e Ashley Hickson-Lovence. Lauren James é autora do thriller YA Last Seen Online e de outros romances que alcançaram leitores jovens em diversas editoras e territórios, sendo reconhecida por sua escrita envolvente e relevância para o público adolescente. Ashley Hickson-Lovence é escritor britânico, romancista e professor de Escrita Criativa, autor de romances como The 392, Your Show e Wild East — este último escrito em verso e voltado ao público juvenil, com forte recepção crítica, (surpreendentemente)  sucesso entre jovens leitores e presença marcante em festivais literários.

Ver autores falando sobre seus processos criativos e respondendo diretamente às perguntas dos alunos trouxe uma vitalidade notável ao dia e mostrou como encontros com as pessoas por trás dos livros podem inspirar quem está começando a ler e escrever.

O grupo que ficou comigo era relativamente pequeno — cerca de nove alunos — o que foi ideal para estimular a interação e, admito, facilitou a gestão da turma para mim. O foco da oficina foi a criação de personagens, minha parte favorita no processo de construir narrativas. Começámos com uma breve atividade de aquecimento: um exercício de speed dating entre personagens imaginários (os alunos não iam a encontros — seus personagens iam). Em seguida, trabalhamos com prompts de escrita do tipo “e se” envolvendo os objetos de seus personagens. Por fim, eles tiveram vinte minutos para escrever uma cena em que o personagem perdia um objeto secreto e precioso.

Fiquei impressionada ao ver aqueles alunos escrevendo por vinte minutos completos, a sala em silêncio absoluto, exceto pelo som de lápis riscando e borrachas apagando. Nada de conversas paralelas, nada de cabeças apoiadas na mesa. Talvez crianças britânicas entre 11 e 14 anos sejam mesmo mais comportadas do que eu me lembro de ser na escola no Brasil nessa idade — mas prefiro acreditar que o desenho da oficina realmente os envolveu. Soube depois, por meio da avaliação anônima, que um aluno escreveu que se sentiu como um verdadeiro estudante da UEA!

A acessibilidade em sala foi fundamental para que tudo funcionasse bem. Fui acompanhada por uma aluna de graduação do curso de Inglês, integrante do grupo de Student Ambassadors, que apoia eventos institucionais da universidade. Ela foi simplesmente fantástica: ajudou na minha locomoção pelo campus, operou os slides durante a oficina e — para minha surpresa mais emocionante — participou das atividades junto com os alunos. Uma jovem encantadora. Ver aquela mediação acontecer de forma tão natural — alguém ali não apenas ajudando, mas efetivamente escrevendo junto — foi tão bonito que quase me fez chorar.

Nesse mesmo dia, vários colegas meus de doutorado também ministraram oficinas, cada um trazendo perspectivas diferentes sobre escrita, leitura crítica e criatividade. Foi inspirador ver como nossa comunidade de pós-graduação conseguiu oferecer uma variedade tão rica de experiências educativas para esses jovens leitores.

A organização do UEA Live in Schools deste ano ficou a cargo da minha orientadora, Birgit Breidenbach — minha verdadeira fada madrinha acadêmica. Birgit tem sido mentora para mim desde o mestrado, não apenas no sentido estritamente acadêmico, mas também como inspiração pedagógica. Observar de perto a forma como ela desenha cursos, concebe atividades, articula pessoas e torna projetos complexos viáveis é, para mim, uma aprendizagem contínua e profundamente generosa.

Saí daquele dia exausta, mas energizada — com aquela sensação rara de que ensino, escrita, pesquisa e encontro podem, sim, acontecer no mesmo gesto.

Infelizmente não tenho nenhuma foto do dia. Tirei a possibilidade de fotos da cabeça por causa da questão do direito de imagem das crianças, mas poderia ter pelo menos uma dos organizadores e os ministrantes de oficinas. Enfim, de qualquer maneira foi um ótimo dia no nosso lindo campus – cheio de sol – surpreendentemente.

PS: O microfone com controles na foto que ilustra este post é um roger on mic, equipamento que uso para ouvir com mais facilidade em grupos ou lugares com ruído de fundo. Falei melhor sobre ele no post anterior a este, em que conto um pouquinho da minha experiência em Harvard.

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