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‘Chinelos’ – Conto publicado na Revista Autorretratos (outubro de 2023)

Escrevi o conto ‘Chinelos’ nos primeiros anos da minha vida no Reino Unido, pouco depois de chegar ao país em 2020, em pleno auge da pandemia de Covid-19. Como muitas pessoas que viviam no exterior naquele momento, eu me sentia suspensa entre lugares: fisicamente na Grã-Bretanha, mas emocionalmente ainda muito no Brasil.

A história começou com algo aparentemente simples — um par de chinelos.

No Brasil, os tradicionais chinelos de borracha presos por uma tira entre os dedos são quase universais. Fazem parte da paisagem cotidiana da vida: práticos, baratos e presentes em toda parte. No Reino Unido, porém, rapidamente percebi que eles ocupam um lugar muito diferente na hierarquia social dos sapatos. Mesmo em dias quentes, quase ninguém parecia usá-los. Sempre que eu comentava que estava tentando escrever um conto inspirado em chinelos, a reação costumava ser uma mistura de estranhamento e até de achar engraçado.

Ainda assim, o meu próprio par — Havaianas cor-de-rosa com glitter na sola — era presença constante no dia a dia. Eu os usava o tempo todo em casa, às vezes até com meias nos meses mais frios! (perdoem a heresia.) Em um período em que viajar era extremamente difícil e voltar ao Brasil parecia uma possibilidade muito distante, aqueles chinelos acabaram se tornando um dos poucos objetos que ainda carregavam a textura de casa.

Essa sensação de deslocamento acabou se tornando, pouco a pouco, o centro emocional do conto.

Em ‘Chinelos’, a protagonista procura um par de chinelos desaparecido em sua casa em Londres. O que começa como uma busca doméstica trivial abre gradualmente uma cadeia de lembranças que se deslocam entre passado e presente, entre Brasil e Reino Unido, e entre duas versões de si mesma: a menina que ela foi um dia e a mulher que se tornou. O objeto funciona como um pequeno recipiente de memória — guardando vestígios de classe social, história familiar, luto e migração.

Diferentemente de outro conto escrito no mesmo período, ‘Espelho Cego’, este texto não nasceu de uma pergunta específica sobre deficiência ou política de identidade. Em vez disso, ele surgiu de múltiplas reescritas de uma narrativa construída em torno de um pequeno objeto cotidiano — um exercício de exploração de personagem que, aos poucos, foi revelando camadas emocionais mais profundas.

A protagonista, cuja silhueta inicial eu já tinha em mente, também encontrou aqui um pequeno espaço para crescer. Hoje ela é uma das duas personagens centrais do meu novo romance — o componente criativo do meu doutorado. Futuras leitoras e leitores desse livro — que espero que um dia existam no mundo real! — certamente reconhecerão neste conto alguns elementos da versão inicial de Eliza, mas também perceberão muitas ausências. Isso porque aqui ainda estamos diante da massa crua. A versão final está neste momento no forno, em processo de crescimento, e espero que em breve apareça fofinha e douradinha.

O conto foi publicado em outubro de 2023 na revista literária brasileira Revista Autorretratos, uma publicação digital independente dedicada à prosa e à poesia contemporâneas.

Leia o conto na revista completa aqui:

https://drive.google.com/file/d/1h9UZX9SRoFJbYHDDfzyQwvLNjuNt2aJU/view?usp=drivesdk

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