A graduação em Letras na universidade de São Paulo, com habilitação em Inglês e Português, foi o ponto de partida. Uma experiência intensa que me possibilitou adquirir conhecimento em diversas discplinas dentro da área de Literature eLinguística. Além das aulas obrigatórias de língulinguística do português e do inglês e as literaturas correspondentes,encontrei meu lugar no departamento deTeoria Literária e Literatura Comparada. Isso me permitiu desenvolver um olhar mais amplo para a literatura do presente e também uma pesquisa de iniciação científica sobre a obra de Karl Ove Knausgaard e a construçãofragmentária daidentidade do sujeito pós-moderno. (Usei as obras traduzidas para o inglês, então, não, não falo norueguês! – ainda!).

Uma das maiores frustrações que tive na USP, foi a falta da exploração da prática da escrita como arte. Fica o aviso para aspirantes a escritores: a maioria das faculdades de Letras não vai te dar espaço para escrever nada além de ensaios e artigos. Isso está mudando, mas é um processo gradual. Então, tive que apelar para cursos livres. Minha

maior mentora nos primeiros passos foi a maravilhosa Noemi Jaffe, hoje criadora da Escrevedeira Centro Cultural.

Então, descobri a pós-graduação em Formação de Escritores do Instituto Vera Cruz, uma pós-graduação lato-sensu com 2 anos e meio de duração inspirada nos MFAs em Escrita Criativa do mundo anglófono. Foi uma das experiências mais transformadoras que vivi. Entrei lá uma escritora e saí outra, com um manuscrito praticamente pronto para ser publicado. Tive aulas com os maiores nomes da literatura do Brasil – Roberto Taddei, Sérgio Corsaletti, Marília Garcia, Isabela Noronha, Carolina Abed e o incrível Julián Fuks, que fez a gentileza de escrever um texto de orelha com elogios rasgados ao meu primeiro livro, Prismas, que foi meu trabalho de conclusão de curso. Se quiser saber mais sobre o livro, publicado pela Editora Patuá, uma gigante entre as editoras independentes, clique aqui.

Logo em seguida, decidi partir para o exterior. Sempre tive uma conexão com a Inglaterra que não sei bem colocar em palavras e, por algum milagre, o departamento de Literatura, Teatro e Escrita Criativa da University of East

Anglia me aceitou no programa de Mestrado em Literatura Modernista e Contemporânea. A UEA é um fenômeno que precisa ser estudado – e de fato está sendo, dentro da esfera da pedagogia da escrita criativa. De lá saem escritores muito bem-sucedidos, como Ian McEwan, Naomi Alderman, Giles Foden (com quem tenho o prazer de ter contato cotidiano) e Kazuo Ishiguro (sim, um cara queganhou o Nobel de literatura.)

O mestrado foi uma experiência agridoce, mas que me trouxe muitos frutos, como a descoberta de que minha escrita é recebida de forma diferente em inglês, que me sinto extremamente confortável escrevendo em uma língua em que as palavras parecem não ter o mesmo peso da minha língua materna, e também a criação de contatos importantes e amizades duradouras.

Minha dissertação foi sobre a representação da cegueira em obras literárias de Clarice Lispector, Raymond Carver e Jorge Luis Borges. Lendo autores tão distintos e em três línguas diferentes, mas que têm ponto em comum explorar a imagem do cego ou a experiência da cegueira como instrumento expressivo, pude argumentar que até mesmo quando a deficiência visual é usada como metáfora, ela expressa uma experiência, e vice versa.

Com pouco intervalo, comecei o doutorado em Escrita Critico-Criativa também na University of East Anglia. Dessa vez, decidi expandir a definição de deficiência que utilizei no mestrado e pensar em como as formas literárias podem ser influenciadas, ou totalmente geradas pela experiência do corpo-mente com deficiência, desta vez não só cegueira, mas qualquer condição do corpo, dos sentidos ou da mente vista como desviando de um padrão de normalidade (cada vez mais difuso). Se quiser saber mais, clique aqui e vá para a secão Pesquisa do site que lá explico melhor.

Navegar o mundo com uma doença crônica que causa deficiência visual e de processamento auditivo moldou profundamente a minha perspectiva — pessoal, acadêmica e criativamente. Esse olhar singular atravessa minha escrita e me permite explorar temas como percepção, identidade e as sutilezas da experiência humana.