Durante as quatro semanas do mês de julho de 2025, participei do Institute for World Literature (IWL), um programa internacional de verão sediado na Universidade de Harvard. O IWL reúne pesquisadoras e pesquisadores do mundo todo para um mês intensivo de seminários, palestras e colóquios, criando um espaço de circulação intelectual bastante singular — intenso, exigente e, ao mesmo tempo, profundamente formativo do ponto de vista acadêmico.
No programa, cursei dois seminários que dialogam diretamente com minha pesquisa de doutorado. O primeiro foi ‘Multilingualism as Critique’, (Multilingualismo como Crítica) com Matylda Figlerowicz, dedicado a pensar o multilinguismo como uma prática crítica capaz de tensionar cânones literários, regimes de tradução e formas hegemônicas de leitura. O segundo, ‘The undiscovered Country’ (O País a ser Descoberto), com Delia Ungureanu, explorou projetos literários e intelectuais que imaginaram novas configurações de país, pertencimento e futuro em contextos de crise histórica. Foram seminários densos, estimulantes e conduzidos com grande generosidade intelectual.
Além das aulas, participei de um colóquio do IWL, no qual apresentei minha pesquisa e atuei como líder da sessão. Um colóquio é um espaço estruturado de discussão acadêmica: cada participante apresenta um trabalho em andamento, seguido por comentários e debate coletivo. Liderar uma sessão envolve organizar o tempo, mediar a conversa e incentivar uma troca crítica produtiva entre pessoas de formações e tradições muito diferentes — algo que considero uma experiência extremamente rica.
O grupo do IWL foi, sem exagero, extraordinário. Havia pessoas de todos os continentes, com percursos muito distintos, e cheguei inclusive a conhecer alguém do Tibete. Ao mesmo tempo, senti falta de uma presença mais significativa de pesquisadoras e pesquisadores latino-americanos e africanos, uma ausência que se torna visível justamente em um programa que se propõe global.
Um dos momentos mais marcantes do mês foi o bate-papo com André Aciman, que esteve no IWL para uma conversa aberta. Foi, honestamente, uma das palestras mais incríveis que já assisti — não apenas pelo conteúdo, mas pela maneira generosa, inteligente e humana com que ele falou de literatura, memória e escrita.
No plano pessoal, porém, a experiência foi atravessada por dificuldades importantes, especialmente relacionadas à acessibilidade. Apesar da boa-vontade genuína de todas as pessoas envolvidas na organização do programa, enfrentei muitos obstáculos para me deslocar pelo campus imenso de Harvard, o que foi particularmente desafiador considerando minha deficiência visual.
Além disso, não pude confiar no hearing loop oferecido pela universidade, um sistema de acessibilidade sonora que transmite o áudio diretamente para aparelhos auditivos ou implantes cocleares, reduzindo ruído de fundo e melhorando a compreensão da fala. Eu utilizo o hearing loop como uma ferramenta essencial, já que tenho uma perda de processamento auditivo, e o sistema falhou comigo diversas vezes, deixando-me sem acesso adequado às aulas e palestras. Também observei uma prática recorrente de se fazer adaptações presumidas — pensadas como benéficas, mas implementadas sem me consultar — que acabaram, em alguns momentos, me prejudicando ainda mais. Essa experiência reforçou algo que já venho pensando há algum tempo: acessibilidade não é apenas construir rampas e adquirir equipamentos caros, mas escuta e diálogo.
O mês também foi marcado por um calor intenso, fisicamente difícil de administrar, e por uma sensação de clima social tenso fora do programa. É importante dizer que, dentro do IWL, todas as pessoas foram extremamente gentis e acolhedoras. A tensão que senti vinha mais da convivência cotidiana nos Estados Unidos naquele momento político específico, algo que me chamou atenção mesmo estando em Massachusetts, um estado tradicionalmente democrata.
No fim, o IWL foi uma experiência intelectualmente muito rica e curricularmente importante, que ampliou redes, referências e diálogos que seguem reverberando no meu trabalho. Ao mesmo tempo, foi uma vivência que me levou a pensar com ainda mais cuidado sobre instituições, acesso e os limites entre boa intenção e inclusão efetiva. Como muitas experiências acadêmicas intensas, foi feita de ganhos e fricções — e também por isso deixou marcas duradouras.
PS: Olha eu ali na primeira fila da foto com os grandões! Acharam mais fácil eu ficar ali que me fazer subir escadas. Benefícios PCD!