O que acontece quando escrevemos a partir do corpo — com todas as suas fragilidades, dependências e descontinuidades?
Em “To Break the Fifth Wall” (“Quebrar A Quinta Parede”), título provisório da minha tese crítico-criativa de doutorado, investigo como a deficiência pode transformar não apenas os temas da literatura, mas também as formas narrativas que utilizamos para expressá-los. O projeto combina ficção e reflexão teórica para explorar como fragmentação, silêncio e incerteza podem se tornar recursos formais capazes de dar corpo a experiências que desafiam expectativas normativas sobre autonomia, coerência e linearidade.
“O que acontece quando escrevemos a partir do corpo-mente — com todas as suas fragilidades, dependências e descontinuidades?”
Minha pesquisa utiliza uma metodologia crítico-criativa, abordagem em que criação literária e reflexão teórica se desenvolvem de forma interdependente. Nesse modelo, o romance não é apenas objeto de análise: ele próprio funciona como espaço de investigação. A escrita torna-se uma forma de pensamento, capaz de testar hipóteses, explorar limites formais e produzir conhecimento que não poderia emergir apenas por meio do discurso crítico tradicional.
Essa é a pergunta que orienta minha pesquisa. Investigo como a deficiência pode transformar não apenas as histórias que contamos, mas também as formas que escolhemos para contá-las.
Partindo da experiência encarnada — com suas fragilidades, dependências e descontinuidades — exploro como o corpo pode se tornar um ponto de partida para a forma literária.
Fragmentação, incompletude e não-linearidade não aparecem como falhas narrativas, mas como caminhos estéticas que permitem expressar outras maneiras de estar no mundo.
O projeto se desenvolve em duas frentes complementares: um romance experimental (também com título provisório Quebrar A Quinta Parede) e um ensaio crítico.
Três vozes dividem o espaço da página do romance — nem sempre em harmonia, mas sempre em tensão produtiva. A forma material do texto procura refletir as assimetrias de percepção, linguagem e experiência que atravessam a relação entre as duas protagonistas.
Uma atriz brasileira vivendo na Inglaterra retorna ao Brasil e escreve em fragmentos. Recém-surda e enfrentando um bloqueio criativo, Eliza reflete sobre linguagem, memória e identidade, em uma narrativa íntima e desconcertada.
Viv é uma mulher com deficiência física que foi assistida por Eliza durante a pandemia de Covid-19. As duas acabam por se tornar amantes. Com a estranheza e as limitações da transcrição automática, Viv responde a Eliza em uma coluna lateral — um espaço apertado e marginal, não por coincidência.
Fragmentos da ancestralidade de Eliza, narrados em ordem cronológica reversa. Esses trechos funcionam como “próteses narrativas”: formas ficcionais de resgatar o que foi perdido, negado ou nunca conhecido.
O ensaio crítico que acompanha o romance investiga como a deficiência pode operar como princípio formal na literatura. Para isso, analiso obras de dois autores que admiro há muito, desde antes de estudá-los formalmente: Samuel Beckett e J. M. Coetzee. Examino de que maneira esses textos desestabilizam convenções narrativas, expõem a fragilidade do romance como gênero – e do próprio ato de escrever –, e se utilizam de próteses (no sentido literal e figurado) para sustentarem sua estrutura.
Se você se identifica com meu trabalho e tem interesse em me convidar para colaborar em projetos futuros — mentorias, oficinas, leitura crítica, eventos, parcerias criativas e/ou de pesquisa – adoraria saber mais.
Embora ainda em desenvolvimento, “To Break the Fifth Wall” já foi apresentado em conferências acadêmicas, oficinas de escrita e grupos de discussão. Trechos do romance foram lidos publicamente, e partes do ensaio teórico têm contribuído para debates e atividades de ensino em diferentes contextos.
Em 2025, o projeto viajou comigo para Harvard, onde liderei e apresentei em um grupo de colóquio no Institute for World Literature. Em 2026, apresentarei o trabalho na Leeds International Disability Studies Conference, encontro que reúne pesquisadores de todo o mundo dedicados ao estudo da deficiência como uma questão estética e social.